25.11.09

carta a um homem à espreita

querido p.,


me recuso a fazer grandes projeções, mas só queria te dizer algumas coisas bobas e simples, dessas bem honestas que a gente diz só pra quem com certeza vai entender. não há nada de muito grandioso sobre mim, mas ainda assim eu sinto que esse espaço entre nós guarda grandes imagens, momentos preciosos e alguns sons que só se fazem entre quatro paredes. uma vez te encontrei no ponto de ônibus depois de muito tempo, e pode ter sido rápido - até superficial pra quem estivesse passando - mas eu sei que se a gente conversou com tanta facilidade por tão pouco tempo é porque nos merecemos um pouquinho. então, por conta desse nosso encontro, e também por conta dos seus olhos castanhos que eu nunca consegui esquecer, queria dividir certas impressões minhas:

sinto muita falta do calor humano, desses que a gente só sente no auge de um compreendimento mútuo que acontece tão raras vezes quanto é raro o amor. e acho que alguém que não fosse você, se lesse isso, diria que eu sou uma romântica incurável, que eu vivo em séculos passados, em filmes, mas não é isso que eu disse - só você seria capaz de sacar. não estou falando de romance, não restou falando de amor, nem sequer de paixão; tô falando de tesão mesmo. tem faltado tesão na minha vida, gente por quem valeria a pena se jogar na cama e gritar, alguém com quem eu não me importaria de estar deitada suada num cômodo fechado morrendo de calor e cansaço, falta alguém que vale a pena.

os beijos, as drinks, a embriaguez, tem sido tudo seco e vazio; falta tesão, e eu acho mesmo que você é o único que pode resolver essa questão.

te aguardo,
m.


24.11.09

and then he said to my dog: you're almost as beautiful as your owner.
da série: arrependimento pós-overreaction
ou: don't you know you crush my tiny figure?

se eu sei de todas as vezes que te amei, gato, é porque tenho plena consciência das minhas próprias ilusões. o que eu queria mesmo era uma noite saudável, e depois um dia bem ensolarado com programas ao ar livre e piqueniques e sanduíches de queijo brie e suco de laranja como acompanhamento. 22 anos me bastaram dessa vida, não quero mais a noite nem os cigarros nem as trepadas, preciso de um pouco de descanso, meu corpo é pequeno e não aguenta tanto lixo.

19.11.09

cansei de te esperar nesse meu estado de simultaneamente ser mulher e ser nada. se meu último esforço para fazer valer todas as nossas tentativas foi tão dissimuladamente posto de lado, me mantenho aqui, intacta, à espera da próxima aventura. veja bem, darling, acho mesmo que o mais incrível de ser eu, de a gente ser a gente, de pessoas serem pessoas - é que as pessoas esquecem. essa é a grande qualidade que nos leva sempre em frente. de todas as vezes que você me colocou como estepe eu só lembro sempre da última. é por isso que continuo indo ao seu encontro. mas decidi que nada idsso vale a pena, trocar um pouco de dor por um pouco de sexo é tão babaca quanto sonhar com um grande amor; prefiro me preservar dos teus braços, prefiro nunca mais te dar, prefiro até a idéia da solidão do que a idéia de você, quem sabe, pensando em mim quando das manhãs em que você chega em casa, voltando do trabalho, e se vê sozinho num quarto com duas camas e nenhuma compreensão.

16.11.09

14.11.09

enterrando ana cristina


porque é bem assim que funciona: sal numa mão, limão à espera, e o shot amargo pra dentro. tequila, meu bem, mata tudo, até o amor próprio. não que eu seja exatamente munida de amor próprio - certamente, se fosse, não tentaria me perder tanto nas noitadas regadas a drogas lícitas ou não - o que eu procuro não é o amor próprio, mas o amor alheio. que é ainda mais raro. e ainda mais raro a cada embriaguez; minha embriaguez já é histérica, minha loucura é desespero, minha risada alcoólica é parede. eu escondi toda a minha coragem social pra usar só nas noites, onde eu sou anônima e posso dizer o que quiser, sonhar o que quiser e beijar quem eu quiser. no dia seguinte a gente finge que nada aconteceu, e é assim: nada continua acontecendo sem previsão de fim. é sórdido e triste, mas é tudo que eu tenho: nos contentamos com pouco, nós, nessa falta de saída que é ser humano.

12.11.09

quando você notar o seu erro, eu já estarei longe, terei corrido milhas para longe do seu alcance, e coberto a memória do seu rosto com os cheiros e os gostos de centenas de outros homens. me doarei à luxúria para superar a sua falta de carinho - serei do mundo ao mesmo tempo que enterrada na minha própria solidão. não se engane, querido, seu destino é me amar, e eu posso querer fugir disso com todos os entorpecentes, cheirando todas as carreiras, bebendo até gorfar nas paredes brancas do seu apartamento claro, mas isso não vai fazer com que você consiga fugir da verdade de que você não é o mocinho dessa história e eu não sou bandida - estamos os dois empacados nessa histeria dramática, quando não passamos de duas pessoas vazias à procura de um pouco de diversão não-prejudicial. mas você tem me machucado, sim, a despeito de todos os seus esforços para se manter distante e dos meus esforços para me manter insensível. eu obviamente não sou tão porra-louca quanto você demonstra pensar, por dentro eu tenho muito sofrimento disfarçado, em algum local dentro de mim não posso mais fugir: sou humana e aceito a vulnerabilidade.

o que eu não aceito é a sua presença aleatória. se você quer esfregar na minha cara o tempo todo que eu não pertenço a você ainda porque estou presa a esse mundo dos loucos e livres, se imponha, se faça atroz e visível, tome o seu lugar e me coloque no meu. toda porra-louquice tem limite e a minha só está esperando pelas suas ordens.

11.11.09

i was just a jerk playing with matches

eu te odeio um pouco hoje por ter me tornado essa coleção de patetismos que me permitem ter um pouco da sua atenção. alguma coisa dentro desse meu corpo muito pequeno insiste em querer que você faça parte da minha vida como algo além de sexo casual, e não é nem que eu pense em você antes de dormir - porque eu não penso - ou lembre de você durante alguma aula monótona - porque não lembro. a verdade é que você tem pouquíssima participação na minha existência, normalmente só quando eu dou risada com algum amigo das loucuras que você diz ou faz; mas não adianta, eu sei que eu acredito, nem que seja só durante um segundo perdido dentro de uma semana inteira, eu acredito que você age assim desse jeito louco porque também quer um pouquinho da minha atenção de um jeito diferente ou maior do que eu estou disposta a te dar, e eu não sei quanto tempo nós dois aguentamos ficar nesse joguinho de forças, mas hoje eu queria não ter que aguentar, pelo simples fato de que hoje, nesse exato minuto, eu te odeio ao invés de simplesmente nem lembrar da sua existência.
eu tenho pensado bastante no começo da minha adolescência. quer dizer, tenho pensado bastante na pessoa que eu era quando tinha uns treze, quatorze anos, e é impossível não conseguir me livrar do clichê ridículo de como as coisas eram melhores. quer dizer, a minha adolescência foi um lixo, eu era uma esquisita que me forçava a me encaixar nos grupos mais impropícios e absurdos, na escola eu tinha vontade de chorar de tanto que a inadequação me pesava, e no clube... bom, no clube eu era uma menina feia no meio de um monte de meninas bonitas. uma menina tímida no meio de meninas populares, uma menina baixinha no meio de pernas longuíssimas, eu era o erro. mas disso eu tenho consciência agora. o que eu lembro é de passar as férias na beira da psicina, sem me preocupar com os meus ombros vermelhos no fim do dia, sem me preocupar com celulite ou gordurinhas extras apontadas pelo uso do biquini, sem me preocupar com o cabelo que ia ficar ressecado ou com as unhas que tavam mal-feitas. o que eu lembro é que a melhor parte do dia era assistir os meninos de 16, 17 anos jogando volei enquanto eu tomava sol e sonhava com algum deles, algum sonho bem bobo e inocente de adolescência ainda não frustrada; eu tinha tantas paixões platônicas naquela época e era tão gostoso, eu lembro de tomar cerveja com as meninas pros meninos acharem que nós éramos muito legais, eu lembro de querer ser mais velha e mais madura, poxa, eu lembro de tanta coisa boa, onde é que foram parar essas sensações todas? em algum lugar do caminho eu decidi abandonar aquela adolescente esquisita e despreocupada e virar essa quase-adulta desesperada e sozinha, não sei como nem quando exatamente isso aconteceu, não sei nem se é possível me arrepender dessa mudança, mas a questão é que eu nunca mais tomei sol na beira da piscina sem preocupações babacas estéticas e eu sinto falta de ligar muito pouco para a imagem que eu tenho de mim mesma.